domingo, 3 de novembro de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
Suportes da memória, história dos grupos sociais e o patrimônio.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
SEGREGAÇÃO SÓCIO TERRITORIAL E CULTURA URBANA
Expressão do processo pelo qual o
homem, por meio de sua atividade concreta (espiritual e material), ao mesmo
tempo em que modifica a natureza, cria a si mesmo como ser social, na história,
a cultura se constitui como um conjunto complexo e articulado de códigos,
crenças, padrões e normas de comportamento, valores espirituais, identidades
sociais e sistemas simbólicos que regulam as ações humanas, individuais e
coletivas, no âmbito de formações sócio territoriais ou de grupo sociais
específicos. Se desde sempre a cidade surge como expressão do desejo humano de
se distinguir da natureza e da coesão de um grupo social que a cultuar
amalgamou. A cidade se constitui como uma segunda natureza, um habitat que a
sociedade humana criou para si, como resultado de sua existência cultural.
A partir da baixa idade media, com o
processo de urbanização que se associa ao desenvolvimento do capitalismo, a
vida social tendeu a se tornar cada vez mais vida urbana e a cultura tendeu a
se tornar cada vez mais cultura urbana: uma cultura que se associa ao modo de
vida urbano e à própria cidade. Uma cultura que, a partir do
renascimento, da produção artístico cultural o caráter de produção de bens e
serviços, que se constituem em mercadorias, mas mercadorias muito especiais.
No desenvolvimento desse processo surge
a cidade contemporânea, que resulta de um processo de industrialização que
associou o desenvolvimento capitalista à formação dos grandes aglomerados
urbanos, marcados pela desigualdade social e pelo desenvolvimento dos meios de
comunicação entre outros. Assim, as metrópoles e grandes cidades da
contemporaneidade se constituem, em um só tempo, em espaços da intensificação
da comunicação à escala global e marcante da segregação sócio-territorial a
escala local. Até que ponto esse processo coloca em risco a própria identidade
da cidade?
Como fenômeno que integra o processo de
formação histórica dos aglomerados urbanos, a segregação socioterritorial tem
como um de seus fatores estruturantes a desigualdade de renda na sociedade.
Ainda que outros fatores atuem, quanto maiores as diferenças de renda em uma
metrópole, ou cidade, maior será a segregação socioterritorial e o Brasil é um
país com uma das maiores desigualdades de renda.
A segregação não se concretiza apenas
como fenômeno ligado à renda e aos preços do solo urbano, mas concretiza-se
também refletindo a questão étnica e racial, diferenças de escolaridade e
outras diferenças sociais. A segregação aparece, portanto, como um processo
segundo o qual as diferenças entre grupos sociais existentes na sociedade
“tendem a se concentrar” progressivamente “em diferentes regiões gerais ou
conjuntos de bairros da metrópole”. (Villaça, 2001: 142)
A segregação se estabelece e se
desenvolve na medida das diferenças de sociais. Mas, com o passar do tempo,
essas diferenças se refletem na estrutura intraurbana, e então as diferenças
que a própria segregação gerou, passam a contribuir para tornar as diferenças
na cidade ainda mais profundas. Sem que forças externas venham a interferir no
processo de urbanização, a segregação sócio territorial torna-se uma tendência
que se autor reforça.
O próprio comportamento dos agentes
econômicos no mercado imobiliário busca tirar vantagens da segregação socioterritorial,
criando produtos específicos para cada camada social e, no mais das vezes o
estado atua na mesma direção. Essa tendência traz implicações para a qualidade
do ambiente construído e acaba por se refletir na paisagem urbana, demarcando
paisagens urbanas diferenciadas.
Falando sobre a segregação urbana Castells, já 1983, afirmava que “a
distribuição das residências no espaço’ reproduz ‘uma diferenciação social e
especifica na paisagem urbana, pois as características das moradias e de sua
população estão” articuladas no ambiente construído. Assim, a segregação social
ganha expressão, significado sociocultural e poder de representação das
identidades sociais, na forma urbana da cidade (Castells, 1983: 210)
Marcado pela geração da segregação sócio territorial, esse mesmo processo de conformação do território dos grandes aglomerados urbanos, foi também o processo formador de uma cultura urbana desses aglomerados. A segregação dos grupos sociais nas cidades acaba estabelecendo relações entre as identidades sociais associadas ao território, por um lado, quando constitui a cultura da segregação, a cultura do distanciamento em relação ao outro, fenômeno ao qual se associam os diversos tipos de preconceito em relação a classe social, cor da pele, local de residência; por outro, a segregação acaba possibilitando a formação de subculturas, em diferentes áreas do território. Finalmente, a própria percepção cultural dos moradores da cidade em relação ao território passa a ser mediada pelo fenômeno da segregação.
No âmbito da cultura, valores, identidades e sistemas simbólicos associados à produção artístico-cultural, formam um todo articulado e estruturado, de tal modo que não possível alterar identidades sem alterar valores e sistemas simbólicos; ou alterar valores sem alterar sistemas simbólicos e identidades e assim por diante. Assim, a segregação, como ordenamento social do território enquanto sistema simbólico, também contribui para o processo de formação das identidades sociais e parar conformação das relações intersubjetivas entre os grupos sociais, enquanto sujeitos portadores de identidade, na medida em que associa o tecido urbano das diferentes áreas da cidade a classes e grupos sociais específicos.
Mas, nesse sentido, também interessa a forma como a segregação se reflete na percepção dos territórios, da paisagem e dos grupos sociais nele existentes, e na percepção daquilo que nos territórios será percebido como de valor cultural. Ou seja, se por um lado, interessa a materialização da segregação no território, por outro interessa, a constituição de um imaginário cultural da cidade a partir da segregação.
Trata-se de refletir sobre as consequências culturais da segregação e reconhecer que a cultura urbana contemporânea e diversos fenômenos a ela associados tem como estrutura estruturante a segregação sócio-territorial. Entre os muitos aspectos pertinentes a questão da relação entre a segregação sócio territorial e a cultura urbana, nessa sessão livre será abordada, por um lado, o problema das áreas vizinhas aos centros das grandes metrópoles, que reuniram populações segregadas no passado e que, na contemporaneidade, passam por processos de gentrificação, implicando no reconhecimento de um novo modo de segregação; e, por outro, a problemática das especificidades culturais das favelas, enquanto áreas segregadas das cidades.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
A violência, as cidades e a educação, no Brasil
sábado, 12 de agosto de 2017
Porque eu sou contra a cobrança de mensalidade nas universidades públicas?
A primeira razão é porque a carga tributária, que incide sobre as famílias, já é alta, no Brasil; e, cobrar pela universidade, representa na prática um aumento da carga tributária, que incide sobre as famílias. Já imaginaram se a moda pega e, com diferentes justificativas, os serviços públicos começarem a ser cobrados. O que vai ocorrer é um grande aumento da carga tributária sobre as famílias brasileiras.
Agora, olhando para questão de uma perspectiva acadêmica, o primeiro problema que surge decorre de que a cobrança da mensalidade acabara levando a universidade a um dilema: ou haverá comprometimento da qualidade do ensino e da pesquisa, ou haverá uma enorme elitização do ensino. Basta ver quanto custa uma boa universidade privada. (Veja o vídeo)
Vale dizer: mesmo as boas universidades privadas quase nunca desenvolvem pesquisa ou desenvolvem pouca pesquisa, porque a maior parte da pesquisa não tem retorno comercial. Conclusão: se financiadas por mensalidades, as universidades deixarão de desenvolver pesquisa e, consequentemente, os conteúdos do ensino tenderão a se desatualizar e, assim, formaremos profissionais incapazes de contribuir para o desenvolvimento. Na verdade a universidade pública vai desaparecer.
Vamos supor que, ainda assim, algumas universidades, consigam financiar suas pesquisas, no todo ou em parte, cobrando mensalidades. Se isso acontecesse, estaríamos promovendo uma injustiça, pois o beneficio que resulta do trabalho na universidade, não é apropriado só por seus alunos. Os benefícios da pesquisa acadêmica acabam se difundido por toda a sociedade, pois toda a sociedade precisa de profissionais qualificados e dos resultados pesquisa. Para efeito de explicação vamos dividir os resultados da pesquisa em dois grupos: o das grandes descobertas e o das pequenas descobertas.
No das grandes descobertas, podemos citar o exemplo de uma pesquisa recente da USP, onde médicos conseguiram dissolver um coagulo após um derrame. Essa pesquisa beneficiará não só a formação dos alunos daquela universidade, mas muitos alunos de muitas universidades; e, principalmente, toda pessoa que sofrer um derrame e sua família.
O segundo é das pequenas descobertas. Quase toda dissertação de mestrado, ou tese de doutorado, traz um pequeno avanço no conhecimento, por exemplo, uma dissertação pode indicar porque em certo bairro da cidade há um índice maior de doenças coronarianas, e isso permite a prefeitura realizar melhorias na cidade com benefício para a saúde dos moradores. O impacto do somatório das pequenas descobertas acadêmicas é enorme, porém é invisível (valeria a pena buscar indicadores para torna-lo perceptível para a sociedade!!)
Há ainda outra importante razão para não cobre pela universidade ou qualquer serviço público. O serviço público não só promove a equidade, como, ao fazê-lo, cria laços de solidariedade no tecido social. Esses laços são fundamentais em dois sentidos: contribuem para a redução do grau de violência e possibilitam a coesão em torno da solução de problemas comuns, o que é fundamental para o sucesso coletivo; e ainda que o individualismo e cotidiano do modo de vida mercantilizado, numa cidade rica em mecanismo de segregação, sugira que vivemos na base do “cada um por si e Deus sem poder ajudar”, a verdade é que muito poucos conseguem se beneficiar numa sociedade que vai mal como um todo, como temos visto.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Essa semana juízes brasileiros entraram com uma ação no STF questionando a PEC 55/241. Por isso ainda vale a pena de bate-papo.
A PEC 55/241 tem sido justificada por seus defensores como um mecanismo de combate a crise que o Brasil está enfrentando. No diagnóstico dos defensores da PEC 55/241 a crise tem origem no aumento da dívida pública brasileira. Para combater o crescimento da dívida propõem limitar o gasto publico pelos próximos 20 anos ao gasto atual, corrigindo a inflação.
Não concordo com esse diagnóstico da crise e, portanto, não concordo com a PEC 55/241.
A minha percepção é de que a crise brasileira tem origem balança de pagamentos, ou seja, nas relações comerciais de um país com o resto do mundo: no total de dinheiro que entra e sai de um país, na forma de importações e exportações de produtos, serviços, capital, bem como transferências comerciais. Poder-se-ia (desculpe a mesóclise) dizer, de outro modo, que o problema diz respeito à inserção do Brasil no sistema capitalista internacional e, mais especificamente, na divisão internacional do trabalho.
Essa perspectiva se baseia na observação do desenvolvimento da crise, a partir de 2012. Já com a crise nos EUA em 2008 o Brasil passa a sofre certo impacto na sua balança de pagamentos, com o aumento da remessa de lucros e a redução na entrada de investimento externo. Mas é a partir de 2013, com a queda do preço das commodities no mercado interncional que a crise se desenvolve: a taxa de crescimento do PIB que em 2013 foi de 3,015%, passou a 0,5% em 2014; até chegar ao inicio da recessão em 2015, com crescimento negativo de -3,847%. Os principais produtos de exportação brasileiros são commodities, como por exemplo: Minério de ferro, aço e ferro fundido; Petróleo Bruto; Soja e produtos derivados; Açúcar de cana; Café em grão; Carne de frango (in natura); Farelo e resíduos da extração do óleo de soja.
A partir da queda do preço das commodities o Real se desvalorizou frente ao Dólar, o que determinou duas consequências que deflagram a crise: o custo dos produtos e matérias primas importados aumentou, gerando inflação e retraindo a renda e o gasto das famílias; as empresas, que haviam contraído dívidas no exterior (em moeda estrangeira), viram a suas dividas aumentar significativamente, o que levou as empresas a contrair sues investimentos e a cortar gastos, com matérias primas e salários.
A contração do consumo das empresas e das famílias retraiu a arrecadação e produziu a recessão.
Enquanto isso, pro outro lado, o governo era obrigado a aumentar os juros da dívida, para conter a inflação. O governo decidiu ainda fazer renuncias fiscais para sustentar o nível de emprego. Tudo combinado levou ao aumento do déficit público.
Mas o déficit foi consequência da crise e não ao contrário. A causa da crise é o déficit no balanço de pagamentos. O Brasil viveu um período de prosperidade enquanto as commodities estavam valorizadas no mercado internacional. Passado o período de valorização das commodities, a pressão sobre a moeda trouxe a crise.
A crise não será superada se suas causas não forem superadas.
Superar as causas da crise pressupõe, portanto, buscar uma inserção do Brasil no sistema capitalista internacional capaz de garantir certa equilíbrio no balanço de pagamentos. Para isso será imprescindível uma reestruturação produtiva que gere divisas. É improvável que se possa chegar a essa reestruturação produtiva sem fortes avanços educacionais e em ciência e tecnologia, sem avanços em saúde pública (do saneamento, ao tratamento, passando pela vacinação), sem avanços nas condições de vida e produção nas cidades, por que esses são fatores que determinam a produtividade geral da economia. Sem avanços na produtividade não se consegue divisas, não se é competitivo.
A PEC 55/241 congela a possibilidade desses avanços e, portanto, só vai prolongar a crise. Além de ser socialmente injusta, é um tiro no pé do ponto de viste econômico. Tomar uma decisão dessas nessas condições traz consequências e políticas imprevisíveis. Vale dizer: 75% da população não sabe que a PEC 55/241 existe; e boa parte dos 25% que sabe, ainda não entendeu o tamanho do dano que vai ser gerado.

