Gostaria de compartilhar o meu artigo, que trata da questão do desenvolvimento e do patrimônio cultural. Espero que gostem. Link: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/3329
terça-feira, 23 de abril de 2024
quarta-feira, 17 de abril de 2024
O quê é urbanismo?
Apresento no link uma comunicação que fiz sobre urbanização e urbanismo, que está disponível no canal "Ponto de Partida das Ideias", no YouTube, com o titulo "O quê é urbanismo?"
link: https://www.youtube.com/watch?v=R_oq4l9taJ4
quinta-feira, 5 de agosto de 2021
A reestruturação produtiva e a cidade
A reestruturação produtiva e seus impactos sobre a cidade não são
novidade, basta recordar a forma como as cidades foram impactadas pela
revolução industrial que se iniciou em fins do século XVIII. A atual reestruturação
produtiva se dá acompanhando a crise do fordismo, a partir do final da década
de 1960, e vem produzindo vários impactos sobre a cidade.
Um dos primeiros
impactos da reestruturação produtiva que gerou desdobramentos urbanísticos foi
o impacto dos containers sobre as áreas portuárias. O container não só afetou a
mão de obra portuária, com desdobramentos sobre as áreas urbanas que abrigavam
os grupos sociais vinculados a atividade portuária, como também afetou todo o
processo de armazenamento de mercadoria nessas áreas, com consequente impacto
sobre edificações e áreas urbanas ligadas ao armazenamento de cargas nos
portos. “Os portos de Boston, Nova York, Baltimore, Roterdã, Amsterdã, Londres,
Buenos Aires, Asntos e dezenas de outras cidades passaram por processos muito
similares” [1]
Este processo se desdobrou em políticas urbanas, dando origem a
processos de intervenção urbana. O caso de Baltimore (EUA) é visto como
paradigmático, mas seguem-se outros como os casos Docklands, em Londres, Puerto
Madero, em Buenos Aires, até o recente caso do “Porto Maravilha”,
no Rio de janeiro. Essas intervenções se associaram a ideia de revitalização do
“waterfront” das cidades.
Mas quando se fala da recente em reestruturação produtiva não se pode deixar de
mencionar os computadores e a internet. Sim, computadores não são tudo no
processo de reestruturação produtiva, mas os computadores e a internet
desempenharam um papel importante nesse processo a partir da década de 80 na
década de 90. Logo de inicio profissões como a dos datilógrafos sofreram grande
impacto e acompanhando esse impacto houve uma redução significativa das áreas
ocupadas por escritórios. Com a combinação da internet foi a vez de atividades
como a dos bancos se reestruturarem. Esse processo afetou a contabilidade
bancária com impacto sobre empregos e instalação dos bancos. Logo em seguida
surgiram os caixas eletrônicos que foram colocados dentro de
farmácia do supermercado, espalhados pela cidade. Tudo isso com grande impacto
sobre a localização das atividades urbanas nas cidades.
Ainda nos anos 1990 começa a se desenvolver o comércio via internet,
atingindo de modo geral o “comércio de rua”. A Amazon Foi fundada em 1994. A empresa começou como um mercado
online de livros, mas expandiu-se para vender eletrônicos, software,
videogames, vestuário, móveis, alimentos, brinquedos e joias. Em 2015, a Amazon
superou o Walmart como o varejista, nos EUA. O
comércio via internet não afeta apenas as lojas comerciais, mas também a
localização de produção. Um livro, escrito em inglês, pode ser produzido no
Canadá e vendido aos EUA ou ao Brasil.
Na década inicial dos anos 2000 a internet e os computadores e celulares
deram início a uma nova mudança que atingiu a difusão de produtos culturais, de
jornais a shows musicais. Plataformas como podcast (2004), facebook (2004),
youtube (2005), spotyfy (2008). No mesmo período lojas de aluguel de DVD para
filmes, lojas de CD e livrarias foram também atingidos progressivamente, por
essas plataformas e pelo comercio pela internet.
Nesse período, jornais e revistas, por exemplo, passaram a ser
veiculados pela internet, agora também a celulares que acompanham as pessoas em
toda parte, atingindo toda a cadeia produtiva de jornais e revistas, da
distribuição na banca de jornal, a fábrica de papel, passando por gráficas onde
se realizava a impressão. E tudo isso trouxe consequências para a cidade, na
medida em que produzem um esvaziamento econômico daquelas áreas onde se localizam
as atingidas por esse processo, bem como as áreas de residência dos grupos
sociais vinculadas a essas atividades.
O impacto do covid-19 o Home Office deu um salto no processo de
transferência das cadeias de trabalho para a internet, atingindo fortemente as
áreas centrais das cidades e processo de mobilidade urbana. Esta nova mudança
aponta para uma reestruturação em grande escala sobre a localização do trabalho
intelectual nas cidades, inaugurando uma nova fase de organização do trabalho
no território.
[1] ver: A revitalização das
Docklands londrinas. Guerra, Abilio, in: VITRUVIUS, Resenhasa online, 2005 –
Link: https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/04.040/3159 )
sexta-feira, 23 de julho de 2021
O que esperar para o Centro do Rio de Janeiro
Convido a ouvir o podcast da CRECI - Conselho Regional de Corretores de Imóveis, onde tive a oportunidade de debater com o Presidente do Cau, Pablo Bennetti, o projeto "Reviver Centro" foi aprovado recentemente pela Câmara Municipal do Rio.
Link: https://open.spotify.com/episode/0qxVrssmxWaFG0iVzQcXY8
domingo, 2 de maio de 2021
Brasília e o Desenvolvimentismo: a importância das representações culturais para os caminhos do desenvolvimento.
Debate realizado no instituto Casa Grande tendo como tema é "Brasília e o Desenvolvimentismo", com: - Rosa Freire D’Aguiar, do Conselho Deliberativo do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento; - Leonardo Mesentier, arquiteto do Centro Lucio Costa Iphan/Unesco e professor da EAU e do PPGAU/UFF; - Ricardo Bielschowsky, economista, trabalhou na Cepal/ONU (1991~2011) e é professor do Instituto de Economia da UFRJ. A abertura foi feita por Saturnino Braga, presidente do Instituto Casa Grande (ICG). A mediação ficou a cargo de Marcelo Barbosa, diretor-executivo do ICG. Esse ciclo de debates marca a parceria do Instituto Casa Grande com a Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel, da UERJ, e a celebração dos 50 anos do histórico Teatro Casa Grande.
quarta-feira, 24 de março de 2021
Planos urbanísticos e a configuração do Centro do Rio de Janeiro
Divulgando a palestra sobre Planos urbanísticos e a configuração do Centro do Rio de Janeiro, na perspectiva de longa duração: da virada para o século XIX à virada para o século XXI. A palestra se realizou como parte do Ciclo de Palestras na Estácio sobre a questão dos Planos para O centro do Rio de Janeiro.
https://www.youtube.com/watch?v=6zanyaQaTa0
domingo, 14 de fevereiro de 2021
O PATRIMÔNIO E A RELEVÂNCIA DO AMBIENTE URBANO PARA O TURISMO
Publiquei o artigo O PATRIMÔNIO, O TURISMO, E O DESENVOLMENTO DAS CIDADES: A RELEVÂNCIA DO AMBIENTE URBANO PARA O TURISMO, que compartilho aqui no blog pelo link: https://www.editoracientifica.org/articles/code/210102838?fbclid=IwAR0hqjxgdrLLlwFkqlq0hjdn1ZAApC2p5oCGRxtAFCVyspSjnHUox6cmnBY
Resumo
O turismo se tornou um fenômeno relevante para o desenvolvimento
das cidades, regiões e países, na contemporaneidade. A relevância da questão do
turismo, para a reflexão acadêmica e para a política urbana, está relacionada
ao aumento do peso econômico do sector do turismo, frente à outras atividades
produtivas, indicando que o turismo se tornou uma atividade dinâmica da
economia mundial. Esse artigo busca analisar o desenvolvimento do turismo nas
capitais brasileiras, tendo como referência aquelas que abrigam sítios
integrantes a lista do patrimônio mundial da UNESCO (Organização das Nações
Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura). O artigo parte da ideia de que a
experiência turística envolve a infraestrutura turística, os atrativos turísticos,
mas também, no caso das cidades, o ambiente urbano, que atua como envoltório e
mediador da vivência de uma experiência turística. Em seguida faz uma análise
da participação relativa do turismo nas capitais brasileiras. A partir dessa
análise o estudo argumenta que o desenvolvimento do potencial turístico
brasileiro passa pela melhoria da qualidade do ambiente socioterritorial das
cidades e que a preservação de seu patrimônio cultural é um elemento chave para
a melhoria deste mesmo ambiente socioterritorial.
sábado, 31 de outubro de 2020
Projeto de urbanismo em áreas patrimoniais e o desenvolvimento das cidades
No dia 21 de outubro de 2020 tive o prazer e a honra de participar de um webinário promovido pelo Núcleo de Juiz de Fora, com o tema «Reflexos da requalificação no Centro Histórico». A mesa foi coordenada pela arquiteta Aline Assis de Andrade Cruz, doutoranda em Urbanismo pelo PROURB-UFRJ, bolsista/pesquisadora CAPES e professora substituta do Departamento de Projeto Arquitetônico da FAU/UFRJ, e contou comigo, Leonardo Marques de Mesentier, Professor do PPGAU e da EAU Uff, com o Professor Cristovão Duarte do PROURB e da FAU_ UFRJ e com o Professor Marcos Olender professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora.
A minha
fala procurei enfatizar o papel do projeto de urbanismo em áreas patrimoniais
no desenvolvimento das cidades.
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Urbanismo: historia, doutrina e teoria
A prática sem teoria não passa de uma ação ignorante e a teoria sem prática não passa de uma metafísica sem propósito. O que é importante, portanto, é encontrar uma teoria que sirva prática e uma pratica teoricamente orientada. Na verdade, quando se trata do urbanismo, a pratica é, muitas vezes, também orientada por uma doutrina. Pode-se de forma simplificada dizer que em relação a certo fenômeno ou estrutura social, a historia esta preocupada em revelar “como foi que se deu seu desenvolvimento”, que a teoria se coloca a questão de “como este fenômeno ou estrutura é”, e as doutrinas se voltam para a questão de “como ele deve ser”.
Vale
lembrar que para o antropólogo Claude Lévi-Strauss(1908-2009) e que
marca o processo de constituição da cultura, entendo a cultura como traço que
diferencia os humanos das demais espécies, é o aparecimento de normas que,
expressando a vontade coletiva se sobrepõem as vontades individuais e instintos
(Laraia,1986:56) . Essa passagem nos indica o quanto é importante para a
sociedade o seu processo de desenvolvimento moral e normativo. Este processo
está fundado não só em teorias mas também em doutrinas que antecipam uma transformação
social.
Nesse
sentido é preciso considerar que o projeto de urbanismo e o planejamento
urbano, enquanto instrumentos que visam antecipar uma transformação social,
tendem a ser orientados não só por teorias e pelo conhecimento da historia, mas
também por doutrinas. Projetar e planejar são ações normativas, ou seja, a ação
do urbanista não esta simplesmente baseada naquilo que a cidade contemporânea
é, mas ela também é uma ação com
propositiva e normativa, no sentido de indicar aquilo que a cidade deve ser.
O plano
e o projeto são atividades que tem por objetivo gerar uma realidade que ainda
não existe e, portanto, são sempre de alguma forma fundamentados em doutrinas,
que constituem princípios normativos; e esses princípios normativos são o
fundamento ético do plano e do projeto, e devem ser enunciados com clareza e transparência,
para que a ação do urbanista seja compatível com vida democrática.
O
urbanismo como disciplina e pratica social se alimenta, portanto, dos conhecimento que a historia produziu,
das teorias sobre a cidade, a
urbanização e o próprio urbanismo, e de doutrinas que visam orientar a formação
da cidade, a partir de proposições de natureza ética e moral.
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Patrimônio e Desenvolvimento
domingo, 3 de novembro de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
Suportes da memória, história dos grupos sociais e o patrimônio.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
SEGREGAÇÃO SÓCIO TERRITORIAL E CULTURA URBANA
Expressão do processo pelo qual o
homem, por meio de sua atividade concreta (espiritual e material), ao mesmo
tempo em que modifica a natureza, cria a si mesmo como ser social, na história,
a cultura se constitui como um conjunto complexo e articulado de códigos,
crenças, padrões e normas de comportamento, valores espirituais, identidades
sociais e sistemas simbólicos que regulam as ações humanas, individuais e
coletivas, no âmbito de formações sócio territoriais ou de grupo sociais
específicos. Se desde sempre a cidade surge como expressão do desejo humano de
se distinguir da natureza e da coesão de um grupo social que a cultuar
amalgamou. A cidade se constitui como uma segunda natureza, um habitat que a
sociedade humana criou para si, como resultado de sua existência cultural.
A partir da baixa idade media, com o
processo de urbanização que se associa ao desenvolvimento do capitalismo, a
vida social tendeu a se tornar cada vez mais vida urbana e a cultura tendeu a
se tornar cada vez mais cultura urbana: uma cultura que se associa ao modo de
vida urbano e à própria cidade. Uma cultura que, a partir do
renascimento, da produção artístico cultural o caráter de produção de bens e
serviços, que se constituem em mercadorias, mas mercadorias muito especiais.
No desenvolvimento desse processo surge
a cidade contemporânea, que resulta de um processo de industrialização que
associou o desenvolvimento capitalista à formação dos grandes aglomerados
urbanos, marcados pela desigualdade social e pelo desenvolvimento dos meios de
comunicação entre outros. Assim, as metrópoles e grandes cidades da
contemporaneidade se constituem, em um só tempo, em espaços da intensificação
da comunicação à escala global e marcante da segregação sócio-territorial a
escala local. Até que ponto esse processo coloca em risco a própria identidade
da cidade?
Como fenômeno que integra o processo de
formação histórica dos aglomerados urbanos, a segregação socioterritorial tem
como um de seus fatores estruturantes a desigualdade de renda na sociedade.
Ainda que outros fatores atuem, quanto maiores as diferenças de renda em uma
metrópole, ou cidade, maior será a segregação socioterritorial e o Brasil é um
país com uma das maiores desigualdades de renda.
A segregação não se concretiza apenas
como fenômeno ligado à renda e aos preços do solo urbano, mas concretiza-se
também refletindo a questão étnica e racial, diferenças de escolaridade e
outras diferenças sociais. A segregação aparece, portanto, como um processo
segundo o qual as diferenças entre grupos sociais existentes na sociedade
“tendem a se concentrar” progressivamente “em diferentes regiões gerais ou
conjuntos de bairros da metrópole”. (Villaça, 2001: 142)
A segregação se estabelece e se
desenvolve na medida das diferenças de sociais. Mas, com o passar do tempo,
essas diferenças se refletem na estrutura intraurbana, e então as diferenças
que a própria segregação gerou, passam a contribuir para tornar as diferenças
na cidade ainda mais profundas. Sem que forças externas venham a interferir no
processo de urbanização, a segregação sócio territorial torna-se uma tendência
que se autor reforça.
O próprio comportamento dos agentes
econômicos no mercado imobiliário busca tirar vantagens da segregação socioterritorial,
criando produtos específicos para cada camada social e, no mais das vezes o
estado atua na mesma direção. Essa tendência traz implicações para a qualidade
do ambiente construído e acaba por se refletir na paisagem urbana, demarcando
paisagens urbanas diferenciadas.
Falando sobre a segregação urbana Castells, já 1983, afirmava que “a
distribuição das residências no espaço’ reproduz ‘uma diferenciação social e
especifica na paisagem urbana, pois as características das moradias e de sua
população estão” articuladas no ambiente construído. Assim, a segregação social
ganha expressão, significado sociocultural e poder de representação das
identidades sociais, na forma urbana da cidade (Castells, 1983: 210)
Marcado pela geração da segregação sócio territorial, esse mesmo processo de conformação do território dos grandes aglomerados urbanos, foi também o processo formador de uma cultura urbana desses aglomerados. A segregação dos grupos sociais nas cidades acaba estabelecendo relações entre as identidades sociais associadas ao território, por um lado, quando constitui a cultura da segregação, a cultura do distanciamento em relação ao outro, fenômeno ao qual se associam os diversos tipos de preconceito em relação a classe social, cor da pele, local de residência; por outro, a segregação acaba possibilitando a formação de subculturas, em diferentes áreas do território. Finalmente, a própria percepção cultural dos moradores da cidade em relação ao território passa a ser mediada pelo fenômeno da segregação.
No âmbito da cultura, valores, identidades e sistemas simbólicos associados à produção artístico-cultural, formam um todo articulado e estruturado, de tal modo que não possível alterar identidades sem alterar valores e sistemas simbólicos; ou alterar valores sem alterar sistemas simbólicos e identidades e assim por diante. Assim, a segregação, como ordenamento social do território enquanto sistema simbólico, também contribui para o processo de formação das identidades sociais e parar conformação das relações intersubjetivas entre os grupos sociais, enquanto sujeitos portadores de identidade, na medida em que associa o tecido urbano das diferentes áreas da cidade a classes e grupos sociais específicos.
Mas, nesse sentido, também interessa a forma como a segregação se reflete na percepção dos territórios, da paisagem e dos grupos sociais nele existentes, e na percepção daquilo que nos territórios será percebido como de valor cultural. Ou seja, se por um lado, interessa a materialização da segregação no território, por outro interessa, a constituição de um imaginário cultural da cidade a partir da segregação.
Trata-se de refletir sobre as consequências culturais da segregação e reconhecer que a cultura urbana contemporânea e diversos fenômenos a ela associados tem como estrutura estruturante a segregação sócio-territorial. Entre os muitos aspectos pertinentes a questão da relação entre a segregação sócio territorial e a cultura urbana, nessa sessão livre será abordada, por um lado, o problema das áreas vizinhas aos centros das grandes metrópoles, que reuniram populações segregadas no passado e que, na contemporaneidade, passam por processos de gentrificação, implicando no reconhecimento de um novo modo de segregação; e, por outro, a problemática das especificidades culturais das favelas, enquanto áreas segregadas das cidades.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
A violência, as cidades e a educação, no Brasil
sábado, 12 de agosto de 2017
Porque eu sou contra a cobrança de mensalidade nas universidades públicas?
A primeira razão é porque a carga tributária, que incide sobre as famílias, já é alta, no Brasil; e, cobrar pela universidade, representa na prática um aumento da carga tributária, que incide sobre as famílias. Já imaginaram se a moda pega e, com diferentes justificativas, os serviços públicos começarem a ser cobrados. O que vai ocorrer é um grande aumento da carga tributária sobre as famílias brasileiras.
Agora, olhando para questão de uma perspectiva acadêmica, o primeiro problema que surge decorre de que a cobrança da mensalidade acabara levando a universidade a um dilema: ou haverá comprometimento da qualidade do ensino e da pesquisa, ou haverá uma enorme elitização do ensino. Basta ver quanto custa uma boa universidade privada. (Veja o vídeo)
Vale dizer: mesmo as boas universidades privadas quase nunca desenvolvem pesquisa ou desenvolvem pouca pesquisa, porque a maior parte da pesquisa não tem retorno comercial. Conclusão: se financiadas por mensalidades, as universidades deixarão de desenvolver pesquisa e, consequentemente, os conteúdos do ensino tenderão a se desatualizar e, assim, formaremos profissionais incapazes de contribuir para o desenvolvimento. Na verdade a universidade pública vai desaparecer.
Vamos supor que, ainda assim, algumas universidades, consigam financiar suas pesquisas, no todo ou em parte, cobrando mensalidades. Se isso acontecesse, estaríamos promovendo uma injustiça, pois o beneficio que resulta do trabalho na universidade, não é apropriado só por seus alunos. Os benefícios da pesquisa acadêmica acabam se difundido por toda a sociedade, pois toda a sociedade precisa de profissionais qualificados e dos resultados pesquisa. Para efeito de explicação vamos dividir os resultados da pesquisa em dois grupos: o das grandes descobertas e o das pequenas descobertas.
No das grandes descobertas, podemos citar o exemplo de uma pesquisa recente da USP, onde médicos conseguiram dissolver um coagulo após um derrame. Essa pesquisa beneficiará não só a formação dos alunos daquela universidade, mas muitos alunos de muitas universidades; e, principalmente, toda pessoa que sofrer um derrame e sua família.
O segundo é das pequenas descobertas. Quase toda dissertação de mestrado, ou tese de doutorado, traz um pequeno avanço no conhecimento, por exemplo, uma dissertação pode indicar porque em certo bairro da cidade há um índice maior de doenças coronarianas, e isso permite a prefeitura realizar melhorias na cidade com benefício para a saúde dos moradores. O impacto do somatório das pequenas descobertas acadêmicas é enorme, porém é invisível (valeria a pena buscar indicadores para torna-lo perceptível para a sociedade!!)
Há ainda outra importante razão para não cobre pela universidade ou qualquer serviço público. O serviço público não só promove a equidade, como, ao fazê-lo, cria laços de solidariedade no tecido social. Esses laços são fundamentais em dois sentidos: contribuem para a redução do grau de violência e possibilitam a coesão em torno da solução de problemas comuns, o que é fundamental para o sucesso coletivo; e ainda que o individualismo e cotidiano do modo de vida mercantilizado, numa cidade rica em mecanismo de segregação, sugira que vivemos na base do “cada um por si e Deus sem poder ajudar”, a verdade é que muito poucos conseguem se beneficiar numa sociedade que vai mal como um todo, como temos visto.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Essa semana juízes brasileiros entraram com uma ação no STF questionando a PEC 55/241. Por isso ainda vale a pena de bate-papo.
A PEC 55/241 tem sido justificada por seus defensores como um mecanismo de combate a crise que o Brasil está enfrentando. No diagnóstico dos defensores da PEC 55/241 a crise tem origem no aumento da dívida pública brasileira. Para combater o crescimento da dívida propõem limitar o gasto publico pelos próximos 20 anos ao gasto atual, corrigindo a inflação.
Não concordo com esse diagnóstico da crise e, portanto, não concordo com a PEC 55/241.
A minha percepção é de que a crise brasileira tem origem balança de pagamentos, ou seja, nas relações comerciais de um país com o resto do mundo: no total de dinheiro que entra e sai de um país, na forma de importações e exportações de produtos, serviços, capital, bem como transferências comerciais. Poder-se-ia (desculpe a mesóclise) dizer, de outro modo, que o problema diz respeito à inserção do Brasil no sistema capitalista internacional e, mais especificamente, na divisão internacional do trabalho.
Essa perspectiva se baseia na observação do desenvolvimento da crise, a partir de 2012. Já com a crise nos EUA em 2008 o Brasil passa a sofre certo impacto na sua balança de pagamentos, com o aumento da remessa de lucros e a redução na entrada de investimento externo. Mas é a partir de 2013, com a queda do preço das commodities no mercado interncional que a crise se desenvolve: a taxa de crescimento do PIB que em 2013 foi de 3,015%, passou a 0,5% em 2014; até chegar ao inicio da recessão em 2015, com crescimento negativo de -3,847%. Os principais produtos de exportação brasileiros são commodities, como por exemplo: Minério de ferro, aço e ferro fundido; Petróleo Bruto; Soja e produtos derivados; Açúcar de cana; Café em grão; Carne de frango (in natura); Farelo e resíduos da extração do óleo de soja.
A partir da queda do preço das commodities o Real se desvalorizou frente ao Dólar, o que determinou duas consequências que deflagram a crise: o custo dos produtos e matérias primas importados aumentou, gerando inflação e retraindo a renda e o gasto das famílias; as empresas, que haviam contraído dívidas no exterior (em moeda estrangeira), viram a suas dividas aumentar significativamente, o que levou as empresas a contrair sues investimentos e a cortar gastos, com matérias primas e salários.
A contração do consumo das empresas e das famílias retraiu a arrecadação e produziu a recessão.
Enquanto isso, pro outro lado, o governo era obrigado a aumentar os juros da dívida, para conter a inflação. O governo decidiu ainda fazer renuncias fiscais para sustentar o nível de emprego. Tudo combinado levou ao aumento do déficit público.
Mas o déficit foi consequência da crise e não ao contrário. A causa da crise é o déficit no balanço de pagamentos. O Brasil viveu um período de prosperidade enquanto as commodities estavam valorizadas no mercado internacional. Passado o período de valorização das commodities, a pressão sobre a moeda trouxe a crise.
A crise não será superada se suas causas não forem superadas.
Superar as causas da crise pressupõe, portanto, buscar uma inserção do Brasil no sistema capitalista internacional capaz de garantir certa equilíbrio no balanço de pagamentos. Para isso será imprescindível uma reestruturação produtiva que gere divisas. É improvável que se possa chegar a essa reestruturação produtiva sem fortes avanços educacionais e em ciência e tecnologia, sem avanços em saúde pública (do saneamento, ao tratamento, passando pela vacinação), sem avanços nas condições de vida e produção nas cidades, por que esses são fatores que determinam a produtividade geral da economia. Sem avanços na produtividade não se consegue divisas, não se é competitivo.
A PEC 55/241 congela a possibilidade desses avanços e, portanto, só vai prolongar a crise. Além de ser socialmente injusta, é um tiro no pé do ponto de viste econômico. Tomar uma decisão dessas nessas condições traz consequências e políticas imprevisíveis. Vale dizer: 75% da população não sabe que a PEC 55/241 existe; e boa parte dos 25% que sabe, ainda não entendeu o tamanho do dano que vai ser gerado.


