segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Patrimônio histórico-cultural, o 'habitus da novidade' e a miopia econômica.

Se o indivíduo comprasse a Mona Lisa de Da Vinci e, ao chegar em casa, descobrisse que a moldura que ele tem para expô-la é menor que a tela pintada por Leonardo, qual seria a melhor opção: corta um pedaço da Mona Lisa ou comprar uma nova moldura? Se o individuo conhecesse um pouco de arte, nem que só pelo valor econômico, preferiria comprar uma nova moldura.

No entanto, quando se trata do patrimônio histórico-cultural brasileiro, o mais das vezes, o que se tem preferido fazer é “cortar a Mona Lisa”. Não importa se um estádio de futebol, um parque público ou um conjunto urbano, no caso do patrimônio, muitas vezes a escolha infeliz de alguns gestores públicos e proprietários de bens tombados tem sido essa: “cortar a Mona Lisa”.

Umberto Eco sugere que para se saber se um objeto é uma obra de arte, deve-se verificar se a forma é mais importante que a função, se for é obra de arte. A condição de patrimônio, do mesmo modo, torna indica que para os bens patrimoniais, a forma mais importante que a função. Como propõe a teoria da restauração, nas edificações patrimoniais o uso deve se adequar a forma e não ao contrário. A restauração, como método de intervenção em obras de arte, se constituiu e desenvolveu justamente porque proprietários de obras valiosas queriam preservar a riqueza incorporada à forma do objeto.

Quando os proprietários buscavam a completa destruição do imóvel tombado para explorar o potencial construtivo do terreno, cometiam uma violência contra a cultura, mas em nome da lucratividade do negócio. No entanto, contemporaneamente, o que se vê são reformas que mutilam edificações tombadas, onde os resultados econômicos são duvidosos, quando considerados em relação ao valor que a integridade do objeto patrimonial pode agregar ao valor da edificação. Pior ainda acontece em áreas urbanas, onde cada investidor promove descaracterizações no seu imóvel, contando com a preservação do imóvel do vizinho.

Em um mundo onde a tecnologia tornou-se capaz de reproduzir em massa qualquer objeto e onde a reprodutibilidade técnica e os meios de comunicação de massa banalizam os produtos culturais, os bens irreprodutíveis, produtos de circunstancias históricas e culturais especiais, a cada dia adquirem mais valor. Apesar de milhares de reproduções da Mona Lisa, disponíveis na internet, pessoas do mudo todo continuam se deslocando para conhecer a pintura original.

Exatamente por escapar à lógica da produção em massa e do produto cultural reprodutível e de fácil veiculação pelas mídias, que as áreas urbanas e edificações de valor histórico-cultural se tornaram o objeto do desejo da sociedade contemporânea. Então, a gosto ou a contragosto, a gestores públicos e investidores privados voltam suas as ações para essas áreas e edificações.

Porém, em muitos casos, parece que o fazem sem entender bem o que está acontecendo. Querem implantar suas atividades em bens de valor patrimonial, mas propõem reformas que descaracterizam as edificações, ou porque buscam dar um “ar de novidade” ao bem patrimonial.

Em um mundo onde uma das estratégias centrais para a comercialização de produtos industriais é a da obsolescência planejada e, a cada ano, novidades tecnológicas e de designer (culturais) são lançadas no mercado, com o apoio maciço de propaganda, buscando tornar-se objeto do desejo, nas elites consumistas a apreciação da novidade se constitui num habitus, se entendermos que o que Bourdieu chama de habitus remete aos esquemas de ação e pensamento, às disposições para sentir, pensar e agir decorrentes da existência, no mundo social, de certa capacidade de determinada estrutura e de sua dinâmica ser incorporada pelos agentes, orientando e condicionando ações, bem como representações e identidades de grupos sociais específicos.

Mas é preciso considerar que o desejo por bens patrimoniais surge justamente como resposta ao massacre cultural das novidades e a sensação de instabilidade que essa avalanche constante de atualizações produz nos indivíduos.

A potencialidade contida no patrimônio, no Rio de Janeiro ajudou a revitalizar a área central e vem revitalizando muitas cidades históricas pelo Brasil. Essa potencialidade, no entanto, está ameaçada por gestores públicos e investidores, que envolvidos pelo “o habitus da novidade”, não percebem que o que cada vez mais é desejado, no mundo contemporâneo, é patrimônio histórico-cultural secular e não a “novidade efêmera”; ou porque alguns operam segundo a lógica econômica míope do “puxadinho”. Como se pudessem aumentar o valor da obra, contratando um pintor, até mesmo um pintor de parede, para ampliar a Mona Lisa.

Essa postagem foi motivada pelo artigo: http://www.bomsera.com.br/cidades/224-salvemos-ouro-preto.html

 
 
Colagem: Thales Mesentier

domingo, 11 de dezembro de 2011

Arquitetura & Urbanidade

Está sendo lançamento do livro organizado por Frederico de Holanda “Arquitetura & Urbanidade”, 2ª Edição, revista e ampliada, Prefácio de Joaquim Guedes e outras informações visitem: http://www.fredericodeholanda.com.br na seção “livros”:

O livro pode ser adquirido diretamente com o organizador. O pedido deve ser encaminhado para o email fredholanda44@gmail.com .

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pesquisadores processados: gestão pública e produção acadêmica.


A gestão pública deve ser eficiente e não deve ser arbitrária, nem quando proíbe, nem quando permite. Para tanto, deve se basear em análises técnicas. Por isso, contemporaneamente, cada vez mais, a gestão pública busca se apoiar na produção acadêmica. A pesquisa científica, sendo apropriada pelos processos de análise técnica que informam a gestão republicana, lhe propícia produtividade e reduz a sua arbitrariedade.

No entanto, alguns pesquisadores têm sido processados, por grandes corporações empresárias, em função dos seus pareceres e análises, como no caso TKCSA (ver postagem anterior nesse blog: http://leonardomesentier.blogspot.com/2011/11/pesquisadores-da-fiocruz-e-uerj.html ). Para uma grande corporação empresarial, o processo contra um pesquisador tem um custo quase irrisório. Para o pesquisador, quando se considera a renda de um cientista no Brasil, o custo com a defesa é muito alto.

É um jogo de soma negativa, como a guerra, onde todos perdem, mas ganha quem pode perder mais. Como na guerra, os mais fortes sempre ganham, porque mesmo perdendo mais em termos absolutos, sofrem um dano menor em termos relativos. O jogo de soma negativa é extremamente desvantajoso para quem tem poucos recursos para perder (os pesquisadores); e pouquíssimo desvantajoso para quem tem muitos recursos para perder (as grandes corporações empresariais). Mesmo com vitória certa no processo judicial, para o pesquisador o dano sempre será relativamente maior.

A ação das corporações tem impacto não só sobre aqueles pesquisadores que sofrem os processos, mas toda a comunidade científica. Pessoas equilibradas e racionais procuram evitar problemas nas suas vidas e os cientistas são, em sua grande maioria, equilibrados e racionais. A ameaça que paira no ar acaba determinando escolhas de objetos de estudos, questões e linhas de abordagem, com danos invisíveis, mas muito graves e extensos, para a pesquisa cientifica no Brasil e, conseqüentemente, para toda a sociedade brasileira. Quem vai querer estudar a correlação ente o câncer e o uso do tabaco, se pode ser processado pelas fabricas de cigarro? Quem vai querer pesquisar a correlação entre o uso de bebidas alcoólicas e os acidentes de automóveis se pode ser processado pelas fabricas de bebida? Quem vai querer pesquisar as distorções no sistema de transporte urbano, se pode ser processados por empresas de barcas, ônibus e metro?

A apropriação da produção acadêmico-científica pela gestão pública é uma condição para a realização de um direito difuso da cidadania: direito à boa aplicação dos recursos públicos, direito à gestão não arbitrária da coisa pública. É preciso então criar alguma forma de proteção jurídica para a pesquisa cientifica brasileira. Eis então uma nova questão que se coloca para a reflexão do Legislativo e ação do Ministério Público no Brasil.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O rapto ideológico do suburbio - lançamento de livro

O Jogo continua: mega eventos esportivos e cidades

Está sendo lançado no Rio de Janeiro o livro "O Jogo continua: mega eventos esportivos e cidades", que tem como organizadores os professores Gilmar Mascarenhas, Glauco Bienenstein e Fernanda Sanchez. Haverá dois lançamentos, um na UERJ, dia 6 de dezembro e outro, na UFF, no dia 7 de dezembro. para detalhes ver os convites abaixo:



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Pesquisadores da FIOCRUZ e UERJ processados pela ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico.

Pesquisadores da FIOCRUZ e da UERJ estão sendo processados pela ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico, por terem denunciado publicamente os impactos ao ambiente e aos moradores nas áreas vizinhas a fabrica. Com base nas denuncias o Ministério Público entrou com uma ação contra a companhia. Segue abaixo a nota da APACSA – Articulação das Populações Atingidas pela Companhia Siderúrgica do Atlântico, que está pedindo ampla divulgação nas redes sociais.


"A ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) vem trazendo impactos socioambientais, com danos à saúde, ao ambiente e a renda dos pescadores e moradores de Santa Cruz. Em uma tentativa de intimidação, processa por danos morais profissionais de saúde da Fiocruz e da UERJ que estão trabalhando no caso.

"Em repúdio a isso, viemos conclamar a todos a colaborar em uma ampla divulgação das denúncias das ações da TKCSA, através das redes sociais, nacionais e estrangeiras, na defesa das seguintes reivindicações:

1. Pelo direito à liberdade de expressão;

2. Pelo fim imediato da poluição;

3. Pela indenização e reparação dos pescadores/as e moradores/as;

4. Pelo fim das isenções fiscais cedidas a empresa;

5. Não à licença de operação definitiva e ao termo de ajustamento de conduta.

No endereço eletrônico abaixo se encontram matérias sobre o processo da TKCSA contra os pesquisadores.

http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/materia/?origem=1&matid=27990

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1680659-7823-MP+PEDE+PROIBICAO+DE+OPERACAO+DA+COMPANHIA+SIDERURGICA+DO+ATLANTICO,00.html

Assistam ao vídeo sobre o caso: Desenvolvimento a Ferro e Fogo na Zona Oeste do RJ.

http://www.youtube.com/watch?v=5--nTG9q0A4

Vamos fazer uma grande rede de solidariedade e de comunicação em defesa dos direitos sociais e à saúde ambiental. Junte-se a nós!"

domingo, 13 de novembro de 2011

Este blog esta no facebook com a identidade é Acidade Eomundo

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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Terrorismo no Rio de Janeiro e o exílio do Deputado Marcelo Freixo


Primeiro caso: Um casal é acordado com batidas na porta tarde da noite. Abre e se depara com vários milicianos armados. O líder do grupo então comunica:
- Vocês têm um comportamento inadequado para essa comunidade. Retirem-se dessa casa imediatamente. A casa agora é nossa.
Pode ter sido por fumar maconha, por causa de uma briga ou de uma festa que foi até mais tarde. O casal foi lançado na rua, no meio da noite, com apenas o que pode carregar nas mãos.

Segundo caso: Uma senhora substitui o telhado da sua casa por uma laje, pensando em futuramente fazer uma casa para o seu filho em cima da sua. No dia da inauguração da laje recebe a visita de um representante da milícia local que comunica ela que a área da laje passa a pertencer a milícia. Se alguma casa for feita, um aluguel deverá ser pago a milícia.

São casos que se pode ouvir no Rio de Janeiro, conversando com que mora em área controlada por milícias. Existem, é claro, histórias bem mais sangrentas de assassinatos e tortura, mas os relatos acima exemplificam bem o estado de opressão difuso e cotidiano que impera sobre moradores de áreas controladas por milícias.

Para ficar bem entendido: nos territórios controlados por milícias não há vigência do Estado Democrático de Direito. Pelo controle territorial que exercem as milícias impedem a livre circulação de idéias políticas e a livre associação de seus moradores para reivindicar. Significa dizer, portanto, que não há cidadania nem democracia em boa parte do território da cidade do Rio de Janeiro.

O controle territorial constitui assim uma base a partir da qual as milícias se relacionam com o sistema político. O poder exercido sobre o território garante as milícias uma importante posição de cabo eleitoral no Rio de Janeiro. Nesse sentido, a ação das milícias faz lembrar a ação de grupos para-militares na gênese histórica de fenômenos como o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália.

Soma-se que o dinheiro extorquido de comerciantes, do fornecimento de gás, do transporte, etc., garante as milícias recursos para financiar campanhas eleitorais e subornar autoridades publicas, policiais e juízes corruptos. Como a receita das milícias é proporcional ao seu controle territorial, naturalmente o projeto miliciano é controlar todo o território.

Costumam dizer os militantes de esquerda: “socialismo ou barbárie”. Pode-se parafraseá-los dizendo: “Ou Estado Democrático de Direito ou milícias”. Se as milícias avançam sobre o território deixa de haver cidadania e o Estado Democrático de Direito. Por outro lado, o desenvolvimento do Estado Democrático de Direito é incompatível com milícias; e, ainda que lentamente, a democracia avança sobre o território e, conseqüentemente, milicianos começaram a ser indiciados criminalmente, julgados e presos.

O sistema de poder miliciano se viu ameaçado e resolveu lutar com as armas que tem, armas de fogo. Assim, com o objetivo de intimidar o Estado Democrático de Direito sucede-se ações terroristas, como o assassinato da Juíza Patrícia Acioli e o plano para matar o deputado Marcelo Freixo, que o levam forçadamente ao exílio, para preservar sua vida.

Como é costumeiro ouvir em filmes sobre máfia: não é pessoal, é negócio. O problema das milícias, não é apenas o Deputado Marcelo Freixo ou a Juíza Patrícia Acioli. As milícias vão ameaçar e tentar eliminar qualquer um que faça o Estado Democrático de Direito valer sobre elas e nas áreas sobre seu controle.

Resta saber qual será a resposta que o Estado Democrático de Direito vai dar as milícias.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Nossas cidades estão ficando inviáveis: entrevista com Ermínia Maricato

No link abaixo, entrevista à Desafios do Desenvolvimento, concedida por Ermínia Maricato. A professora, urbanista e militante política, fala dos rumos de nossas políticas urbanas, seu objeto de estudo e área de atuação há quatro décadas. “Para mim, o centro de tudo é a questão da justiça social”, diz ela. Ou seja, de como as metrópoles brasileiras precisam deixar de ser expressão da secular discriminação contra os mais pobres.

http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2508%3Acatid%3D28&Itemid=23

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os bondinhos de Santa Tereza

Os recentes protestos de moradores de Santa Tereza (ver http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/09/01/moradores-familiares-do-motorneiro-morto-em-acidente-com-bonde-fazem-manifestacao-no-centro-pedem-exoneracao-do-secretario-925266721.asp) buscam lembrar que nenhuma análise que se faça do acidente pode escapa à consideração de um fato simples: nenhum governante, nenhum funcionário público, ninguém tem o direito de com seus atos ou omissões colocar em risco saúde ou a vida alheia.

Dito isto, pode-se abordar dois temas que emergem nos desdobramentos do acidente: o tema da modernização e o tema da privatização. Vale dizer: essas temáticas que se articulam.

Modernização: os valores associados á idéia de modernização, especialmente a valorização da tecnologia, tornaram-se hegemônicos a partir da revolução industrial, porém na medida em que as sociedades se industrializaram e se urbanizaram, setores da sociedade passaram a questionar e buscar caminhos alternativos. Talvez o movimento hippie tenha sido só a infância de uma tendência, cada vez presente na sociedade, de questionamento da busca da aceleração do tempo da vida.

Uns preferem Miami, outros Paris; uns preferem funk, outros preferem chorinho; uns preferem energéticos, outros preferem vinho; uns gostam de 'fast food', outros de 'slow food'; uns gostam da vida agitada, outros do tempo lento; uns preferem a Barra, outros Santa Tereza; uns preferem transportes modernos e velozes, outros o antigo e lento bondinho.

A sociedade democrática não é feita de pensamentos únicos. Os grandes consensos são próprios de sociedades totalitárias. A sociedade democrática e feita da composição de interesses. Há que se respeitar então a visão daquelas pessoas que fizeram de Santa Tereza um lugar especial, os seus moradores, que preferiram as dificuldades das suas ladeiras, o tempo lento do seu bondinho, a antiguidade da sua paisagem.


Fonte: http://luizgeremias.blogspot.com/2011/01/o-bonde-tem-uma-historia-para-contar.html 

Privatização: o tema da privatização do bondinho aparece no contexto da turistificação de Santa Tereza ( ver --> http://oglobo.globo.com/blogs/emcartaznaweb/posts/2011/09/01/bonde-privativo-em-santa-teresa-402763.asp). Nesse contexto, quando se fala em privatização dos bondinhos, não se pode esquecer que os processos de privatização das infra-estruturas e serviços da urbanização, como telefonias, estradas (pedágios), e aeroportos, foram antecedidos por processos de sucateamento dessas infra-estruturas e serviços. Foram exemplos inexistência de oferta de linhas telefônicas, estradas esburacadas, caos nos aeroportos.

Coincidência ou não, o sucateamento torna a cidadania mais permeável a idéia de que a privatização é a solução; permeabilidade especialmente relevante quando se considera que privatização, implica em lucratividade e lucratividade em aumento do valor das tarifas.

Depois de privatizados os serviços se tornam de qualidade duvidosa e muito mais caros: metro, barcas, ônibus e as campeãs de reclamação, as companhias de telefonia celular são exemplares, nesse sentido. Porém, depois de privatizado, como diria o popular: "perdeu!"